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Resposta sobre a Feira da Foda de Monção (Do Quora)

A palavra “foda” tem duplo sentido em Portugal? A “Feira da Foda” é um evento a sério ou tem um trocadilho maroto?

Eu sou de Monção. Não sou da freguesia de Pias, onde acontece a feira, mas de outra, a 10km. Como esse prato pelo menos duas vezes por ano, mesmo morando no Brasil, pois visito a família em Dezembro e normalmente é o cardápio do meu aniversário e do réveillon. Então, tenho algumas coisas a dizer.

“Foda” significa em Portugal o mesmo que significa no Brasil: cópula ou, figurativamente, uma situação complicada. Não se usa tanto neste último sentido - preferimos o adjetivo, como em “isto tá fodido” -, mas usa-se.

Apesar de o prato oficialmente ser conhecido como “cordeiro à moda de Monção”, em Monção chamamos-lhe “cabrito”. O nome oficial só ficou assim estabelecido porque a organização do concurso 7 Maravilhas à Mesa não aceitou nem o nome “foda” nem o nome popular, embora incorreto, do ingrediente principal. O prato acabou sendo um dos vencedores desse concurso em 2018, o que levou a que ele se tornasse muito mais conhecido em Portugal e no estrangeiro.

Quando cresci, raramente chamávamos “foda” ao prato. Considerávamos esse nome uma espécie de gracejo popular. Dizíamos “amanhã vou comer cabrito”, não “amanhã vou comer uma foda”. Ou seja, mesmo não tendo sido inventado como manobra publicitária, o nome certamente não era tão popular quanto a publicidade levou a crer. A feira gastronômica, que existe mesmo, foi criada no contexto deste “revival” turístico do prato.

A versão oficial sobre a origem do nome diz que seria o palavrão dito por compradores defraudados em feiras de gado após comprarem animais que, obrigados a beberem água, tinham sido falsamente engordados. Não tenho como dizer que ela é errada, mas há duas outras versões, que ouvi de meus pais e avós, que me parecem fazer bem mais sentido.

A primeira envolve uma foda literal. O dia mais tradicional para se comer o prato é no Domingo de Páscoa, ou seja, se você só comer uma “foda” por ano, a maior probabilidade é que coma nesse dia. Como a minha terra é bem rural hoje, e mais o era antigamente, é normal que no Domingo de Páscoa o padre ande com a cruz de casa em casa, para que os moradores a beijem e lhe deem esmolas. O pessoal jovem normalmente vai atrás dele, aproveitando para comer os docinhos com que as pessoas recebem a procissão. Antigamente, os mocinhos e mocinhas aproveitavam o dia de certa liberdade, em que a família não ficava em cima, para darem uma escapadinha (provavelmente até um recanto íntimo na margem do rio Minho) e namorarem um pouco durante a tarde de Primavera. Portanto, o prato comia-se imediatamente antes ou depois do momento em que os hormônios cumpriam o seu papel.

A segunda tem a ver com a “foda” figurativa que a feitura deste prato implica. Para a preparar ao jeito tradicional, é necessário fazer um cozido à portuguesa no dia anterior - com todas as carnes e legumes possíveis e imaginários - e reservar o caldo que fica do cozimento deste.

Digamos que falamos da foda que se come na Páscoa. Na noite de sábado de Páscoa, esse caldo junta-se ao arroz e ao açafrão num alguidar. O cordeiro, já limpo e temperado (ou seja, depois de ter passado por “banhos” repetidos com uma marinada de vinagre, alho, pimenta, etc.), coloca-se numa grelha em cima do alguidar. Aí, vai para um forno de pedra, com brasas em volta. Reparem, não é fogo vivo, mas brasas, para uma cocção lenta. A porta do forno é então vedada com lama ou bosta de vaca, para que o calor não saia, e deixa-se a assar. A gordura do cordeiro pingará sobre o arroz, que ficará com uma crosta bem durinha e gostosa.

Porém, antes do almoço no domingo, ainda é preciso virar o cordeiro, o que normalmente acontece bem na manhãzinha de domingo. Para saber se ele está no momento certo para virar, é preciso aferir a temperatura do tijolo do forno, e nem toda a gente sabe fazer isto: na minha casa, era uma senhora mais velha, amiga da família, que vinha olhar e dizer se podíamos virá-lo (ela não fazia isso só com a gente; ia de casa em casa e acabava almoçando na última do itinerário). Depois, é preciso quebrar a vedação, se sujar/queimar virando o cordeiro pesado, reavivar as brasas e voltar a fechar a porta, para que o bicho asse do outro lado e esteja pronto na hora do almoço.

Ou seja, dá uma trabalheira infernal e é muito caro. Uma grande foda…

Adenda 03/02/2020: conversando com conterrâneos, apurei dois pormenores interessantes. A versão oficial poderia explicar o fato de chamarmos “cabrito” ao cordeiro, pois os cabritos seriam injetados com água para pesarem mais e terem o brilho de carne de cria de ovelha, ou seja, a pessoa compraria cabrito pensando que comprava cordeiro. Sobre o termo “foda”, há uma outra explicação: durante os tempos da ditadura em Portugal, o cordeiro era tão caro que consegui-lo “era uma foda”.

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