Por que é tão cansativo ler literatura clássica e o que fazer para tornar a leitura menos cansativa?
O que é clássico difere segundo a opinião e não sei qual a sua, mas imagino que se refira a livros não contemporâneos.
A dificuldade tem normalmente vários motivos. Um vocabulário rebuscado, que pode consistir (mais vezes do que se admite) em gírias de uma outra época¹, e palavroso, que a meio de um parágrafo nos dá às vezes vontade de exclamar “já entendi!”. Referências históricas diferentes das nossa. Ou, simplesmente, uma forma diferente de pensar o mundo que se reflete em diferentes formas de ver e de narrar. O impacto do cinema na Literatura nas primeiras décadas do século XX, por exemplo, foi grande e muito discutido, não só porque teve efeitos semelhantes aos que houve na Pintura (liberando para além da tendência realista e permitindo o surgimento dos vários modernismos), mas também porque introduziu no imaginário de todo o mundo novas técnicas de narração antes inexistentes, como cortes, fundidos ou closes, que ainda são muito constitutivas do modo como nós entendemos o mundo hoje.
A minha sugestão é antes conhecer um pouco o contexto em que surgiu o clássico. Não digo que tenha que engolir três livros sobre “Os Sertões” antes de o ler; uma horinha na Wikipedia ou no Google chega. Tente perceber, acima de tudo, o que estava acontecendo com o mundo (o real e o literário) e com o autor quando o livro foi escrito e publicado e também como é que o livro foi escrito e publicado.
Havia guerras nessa época? Quais os filósofos e movimentos literários em voga? O autor era de uma minoria? Era rico ou pobre? Tinha tido um desgosto amoroso ou uma morte na família? Era pai há pouco tempo? Quem eram seus aliados e seus inimigos literários? Quais os principais eventos da política e quais as tensões sociais na época? O autor se envolvia com elas? O que o levou a escrever? O livro demorou muito sendo escrito? Ele foi publicado originalmente em fascículos ou como suplemento de um jornal? Coisas assim.
Isso vai permitir que entre mais facilmente - e com mais interesse - na obra, e entenda também o que nela interessa mais a você. Pense que, tradicionalmente, o romance surgiu como uma forma libertária, que poderia incluir toda e qualquer coisa, e assim é até aos dias de hoje. Ensaio, carta, confissão, diálogo teatral, monólogo em fluxo de consciência… o romance pode incluir qualquer um deles, e ainda assim continuar sendo romance. Sabendo isso, pode tomar a decisão como leitor que os capítulos de “Moby Dick” sobre a morfologia das baleias (pura divulgação científica) não lhe interessam tanto quanto os capítulos narrativos. Está no seu direito, pois, como leitor, você também age sobre o texto, que, no momento em que lê, lhe pertence tanto quanto ao autor.
Só se prepare um pouquinho antes, para não perder coisas que podem ser importantes. Uma longa descrição de uma rua ou de uma catedral pode ser fastidiosa, mas um bom autor vai eventualmente dar uma razão para ela estar lá. Talvez ela represente uma alegoria, por exemplo, ou simplesmente descreva o mundo numa época pré-internet e pré-fotografia, o que em si mesmo pode ser interessante (sem outros jeitos de mostrar, porque é que o cara decidiu descrever desse jeito?).
Em resumo: dê um pouquinho de si para o livro e fique aberto ao que ele possa dar de volta. E, acima de tudo, tire o escritor do pedestal. Tem muito mais graça ler Shakespeare se imaginar que ele estava tentando manter interessado um público cheio de bêbedos que atirariam fruta podre para o palco se não gostassem da peça.
¹ Que podem ter muita graça. Lendo “Ressurreição”, de Machado de Assis (1872), vi que, em vez de “tá pegando aquela mina?”, dizia-se “queimas os teus perfumes naquele altar?”, o que achei maravilhoso e às vezes repito em conversas com amigos.
ilógico é um lugar inventado por Jorge Vaz Nande.
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