Até pouco antes da pandemia, fui um usuário bem ativo do Quora. A sua proposta - uma rede social de perguntas e respostas - fazia-a parecer muito mais charmosa do que as alternativas.
Você tinha uma dúvida sobre um tópico específico? Precisava saber se realmente estava chovendo em um bairro específico de Tóquio naquele momento, ou qual a melhor forma de se deslocar por Split? Você fazia a pergunta e ela era encaminhada para os usuários mais adequados a respondê-la utilizando um critério muito intuitivo: o nível de conhecimento que eles hipoteticamente teriam sobre o tópico. No Quora, eu esclareci pessoas sobre vários temas de literatura, cinema, roteiro e questões culturais de Portugal e do Brasil. Do meu lado, obtive respostas para dúvidas sobre confeitaria e acordes de guitarra.
Porém, há poucos dias, fiz backup dos dados que tinha lá e deletei a conta. Há meses que não abria a newsletter semanal, porque faz algum tempo já que o Quora me parece absolutamente enshitificado. Creio que ele não conseguiu resistir a um golpe triplo.
Primeiro, há uns anos, em uma tentativa de aumentar o tráfico, o site implementou um programa de parceiros que pagava dinheiro para quem publicava lá. Eu próprio ganhei alguns reais na época, mas hoje é claro que o programa tinha um erro: premiava as perguntas mais respondidas ou vistas, não as respostas. A consequência foi imediata: o site foi invadido por uma montanha de perguntas meio tontas, mas muito fáceis de responder, como “onde você está agora?”.
A qualidade começou a cair e não ajudou que, pouco depois, Bolsonaro fosse eleito. De site de conhecimento e opiniões múltiplas, com potencial para virar um grande fórum público, o Quora virou um cercadinho de dualismos, do prós e contras, de aplausos e vaias sem meio termo ou zonas cinzentas. Quando a pandemia chegou, o site não conseguia suprir a necessidade de informação confiável que ela impunha. Simplesmente, ele não era mais um lugar bom para se informar, porque as diferenças das pessoas estavam amalgamadas em dois purês de opinião meio insossos.
Estes são alguns textos que recuperei do meu Quora que não gostaria de perder. Deixo-os aqui como uma espécie de homenagem a um site que quase foi muito bom.
Por que é tão cansativo ler literatura clássica e o que fazer para tornar a leitura menos cansativa?
Qual a frase mais inocente em Portugal que poderia soar obscena no Brasil e vice-versa?
Existem costumes no Brasil que não seriam compreendidos em outros países?
ilógico é um lugar inventado por Jorge Vaz Nande.
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