Existem costumes no Brasil que não seriam compreendidos em outros países?
É um pouco exagerado dizer que não seria compreendido, mas quando cheguei no Brasil me fez um pouco de confusão essa obsessão por beijar tanto entre adolescentes quanto em pessoas adultas. “Vou sair para beijar”, “beijei X pessoas ontem”, “adoro beijar no Carnaval”, etc.
Percebi logo que não era algo que todo mundo fazia e, de qualquer forma, não condeno agora nem condenei então. Apenas achei curioso. Em Portugal, não somos especialmente pudicos, mas nunca percebi em ninguém esse desejo quantitativo relativamente ao beijo. Sair à noite e ficar com alguém, normal. Sair à noite e beijar 50 pessoas me dava vontade de dizer “mas porque alguém quereria fazer isso?”.
O primeiro momento em que senti essa estranheza foi no final da parada gay de 2010. Dois grupos de adolescentes incitavam um moço e uma moça a se beijarem. “Beija! Beija”. Eles se beijaram. Até aí, tudo bem. O que me surpreendeu foi que, após o beijo, cada um tomou o seu caminho, aparentemente sem qualquer problema em nenhuma das partes.
Então, podemos dizer que o que me confundiu foi esse desligamento entre beijo e intimidade (nem uma conversa depois?, nem uma abertura para os dois grupos se conhecerem e fazerem amizade?) e o ato de beijar como um fim em si mesmo. Curiosamente, tempos depois, num regresso temporário a Portugal, conheci dois brasileiros jovens que moravam lá e me disseram que achavam as portuguesas severas: “é muito difícil elas darem um beijinho!”, se queixavam.
Me lembrei então de um trecho do livro How Real Is Real?, de Paul Watzlawick (tradução espanhola aqui), que traduzo e que me pareceu que é bem explicativo dessa suave e divertida divergência:
Durante os últimos anos da 2ª Guerra Mundial e nos primeiros anos do pós-guerra, centenas de milhares de soldados americanos foram posicionados ou passaram pela Grã-Bretanha, oferecendo uma oportunidade única para estudar os efeitos da penetração em grande escala de uma cultura por outra. Um aspeto interessante foi a comparação dos padrões de cortejo. Tanto os soldados americanos quanto as moças britânicas se acusavam mutuamente de serem sexualmente ousados. Uma pesquisa sobre esta curiosa dupla acusação revelou um problema de pontuação interessante. Em ambas as culturas, o ritual de cortejo era composto por aproximadamente trinta passos desde o primeiro contato visual até à consumação. Porém, a sequência destes passos era diferente. Beijar aparecia relativamente cedo no padrão norte-americano (era, digamos, o quinto passo) e relativamente tarde no padrão inglês (assumamos, por exemplo, que era o 25º passo), onde é considerado um comportamento altamente erótico. Então, quando o soldado americano sentia que era o momento ideal para um beijo inocente, a moça não só sentia que faltavam 20 passos no comportamento adequado como também achava que tinha de tomar uma decisão rápida: acabar com o relacionamento e fugir ou se preparar para a relação sexual. Se ela acabava escolhendo a última opção, o soldado era confrontado com um comportamento que, segundo as suas regras culturais, só poderia ser chamado de desavergonhado numa fase tão inicial do relacionamento.
ilógico é um lugar inventado por Jorge Vaz Nande.
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